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Sem marcas, sem proteção

A próxima consulta parecia mais tranquila. Arrumei a mesa de reunião, organizei os documentos e joguei fora a caixa de lenço de papel usada para enxugar as lágrimas da esposa e as lentes dos óculos do marido, antes da leitura do documento de divórcio.

Respirei fundo e pedi para entrar a cliente que já esperava há mais de quarenta minutos e não fez qualquer reclamação.

- Doutora, obrigada por me encaixar no seu horário.

- Fique tranquila. Problemas familiares não avisam quando chegam. Não dá para agendar com tanta antecedência, não é mesmo?

A cliente se sentiu mais confortável, puxou a cadeira para mais perto de mim como se fosse me contar um grande segredo:

- Doutora, meu marido me bate.

Imediatamente, meu olhar nada discreto, de advogada em busca de provas, procurou os hematomas nas poucas partes expostas de seu corpo e… nada.

- A senhora já registrou algum Boletim de Ocorrência?

- Não.

- Já fez alguma perícia, mesmo em médico particular?

- Não.

- Alguém sabe das agressões?

- Não.

- A senhora trabalha?

- Não. Ele nunca deixou.

- Tem filhos?

- Sim, o mais novo está acabando a faculdade.

Ao cair a primeira lágrima, me lembrei que o lenço havia acabado. Mas a cliente tinha seu próprio paninho e o tirou da bolsa com certa intimidade…

- Quando foi a última agressão?

- Ontem.

- Cadê o hematoma?

- Ele nunca deixa marcas.

Covarde! Pensei. Sem testemunhas, sem provas, sem sustento, mas com a coragem, desta vez, de procurar ajuda. Como eu levaria este caso ao judiciário sem qualquer tipo de prova? Para a minha surpresa, a monossilábica cliente disparou…

- Ele me sufoca com travesseiro, me bate de mão aberta, puxa meu cabelo, me joga cama, me prende e me violenta com um tipo de sexo que eu não quero. E ainda me ameaça! Ai, meu Deus, falei!

Esqueci por algum momento do meu lado profissional e, como mulher, deixei sair:

- Ele precisa de uma boa surra! Isso sim.

Meu lado esposa não se conteve e logo se manifestou:

- Desculpe, mas você ainda aguenta conviver com este homem?

Ela respondeu:

- Eu o amo nas horas que estamos em paz. O odeio nas horas horríveis! Sofro muito e ainda dizem que tem mulheres que gostam de apanhar. Doutora, ninguém gosta de apanhar!

A advogada tomou o seu lugar.

- Bom, você deve saber que não existe somente a lei Maria da Penha para te proteger. Para ela, você precisa de provas da agressão. Mas para o divórcio, não precisa de hematomas. Basta querer.

Aquela senhora levantou o olhar como se ainda pudesse haver algo a ser feito, mas precisava ter coragem… coragem! Enquanto ela pensava, continuei falando.

- Pelos trinta anos de casada, você ainda deve ter algum patrimônio para dividir, além da pensão alimentícia.

A consulta tomou um rumo que eu não queria, acabou virando uma espécie de sessão de convencimento. Meu lado advogada acabou convencido pela visão de mulher e esposa dentro de mim, verdadeiras intrusas que se manifestam nas consultas profissionais. E quando o assunto é violência doméstica, elas sempre têm razão. De fato, alguns processos não têm vencedor e perdedor, e este é um deles. O êxito judicial não tiraria a derrota da minha cliente, que precisava recuperar ao menos a sua dignidade. Não demorou muito e ela falou com firmeza:

- Quero isso, doutora.

A cliente marcou outra consulta e trouxe os documentos para o divórcio com pedido de separação de corpos e pensão alimentícia. Naquele dia, a caixa de lenços permaneceu cheia, sem paninho e sem lágrima.

No corredor do fórum, enquanto esperávamos a chamada da audiência, na companhia de um dos filhos, o marido não se controlou ao ver minha cliente e partiu para cima dela.

Em pensamento, dei boas vindas à Maria de Penha.

Ela sempre aparece… se não for tarde demais.

 por Lúcia Miranda