Nasci em 1971, época em que pessoas eram torturadas no Brasil. Enquanto eu engordava, mulheres tinham seus seios ressecados para o interrompimento do aleitamento materno. Minha geração pós-ditadura foi marcada pela apatia política, período destinado a não mexer na ferida para curar logo. Pintávamos as caras para matar aulas, inclusive as de história, voltadas para temas mais distantes. Mesmo na faculdade de direito, ditadura era pano de fundo para alguns institutos do direito constitucional, mas nada muito aprofundado.

Ontem, no depoimento da Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro, duas mulheres mexeram em suas feridas infeccionadas e eternamente doloridas:

Dulce Pandofi (historiadora) – “O professor, diante de seus alunos, fazia demonstrações com o meu corpo. Era uma aula prática, com algumas dicas teóricas. Enquanto eu levava choques elétricos, pendurada no pau de arara, ouvi ele dizer: “essa é a técnica mais eficaz”.”Quando Dulce começou a passar mal, o médico Amilcar Lobo foi chamado. Ele a examinou e disse: “ela ainda aguenta”.

Lucia Murat (cineasta) – “Eu ficava nua, com um capuz na cabeça, uma corda enrolada no pescoço passando pelas costas até as mãos, que estavam amarradas atrás da cintura”. “Enquanto o torturador me violentava, eu não conseguia me defender. Se eu movimentasse meus braços para me proteger, eu me enforcava, e instintivamente voltava para trás”.

Em São Paulo, a jornalista Suely Caldas contou que foi torturada no período de amamentação: “Meu seio estava cheio de leite. Ele foi chamado para me atender e me deu uma injeção para secar o meu seio, para eu não amamentar meu bebê, ao meu lado. Essa foi a participação do Amílcar Lobo que eu vi, da qual fui testemunha.”

Agradeço a essas e outras tantas corajosas mulheres por exporem suas intimidades e seus sofrimentos para completar o capítulo faltante do meu livro de história, da minha faculdade de direito, da minha pátria amada e desalmada, Brasil.

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