Em respeito à infância de Xuxa

Em surpreendente declaração, Xuxa confessa ter sido abusada sexualmente antes dos treze anos de idade e se sente culpada por isso. Afirma que não sabia a quem recorrer, pois era a palavra dela contra a de um adulto. Cita que praticou ato sexual com o melhor amigo de seu pai, com um candidato a avô afetivo e um professor.
Culpá-la? Vejamos: A via crucis para provar tal crime envolvia desde o comparecimento à delegacia para lavrar um registro de ocorrência, ao imediato encaminhamento ao Instituto Médico Legal, para a perícia dos vestígios, chegando à eventual coleta de sêmen, resultante da cópula, não obstante a coragem de divulgar o fato perante a família ou diante de uma sociedade cruel e hipócrita. E não venham dizer que não somos cruéis, pois se aos cinquenta anos a rainha dos baixinhos recebe inúmeras críticas na mídia e nas redes sociais sobre sua declaração, imagine se tivesse declarado isso aos treze, sem os avanços jurídicos e longe do poder que hoje lhe pertence.
Há algum tempo, mesmo nos casos em que a adolescente e sua família venciam as barreiras da discriminação, os réus desse crime acabavam absolvidos do crime de estupro, por provarem o consentimento da jovem menor de quatorze anos, contando com sua fragilidade no depoimento pessoal, o que afastava a presunção da violência, conforme recente decisão do STJ por crime praticado antes da Lei 12.015/2009.
Após a nova lei, o ato sexual praticado com uma criança ou adolescente de até 14 anos, menina ou menino, configura estupro de vulnerável, sendo indiferente o seu consentimento. Ora, se não podem votar, não podem contratar, porque poderiam consentir para o sexo ou ato libidinoso?
Ainda assim, diriam alguns: – Essa menina merecia umas boas palmadas!
Opa, palmada não pode! – E sexo pode?!
A lei evoluiu. A sociedade, pelo visto, ainda precisa evoluir…